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História de Viagem - Bolívia: no Trem da Morte

Viajar 25 horas ao balanço do Trem da Morte,
entre cargas, pessoas e animais, não é nada fácil, mas se aprende muito

Viajando em cima do Trem da Morte no meio da Selva Bolíviana
Atrás: remanescentes de uma tribo de índios nômades bolivianos em viagem. Foto: Acervo/LL


Quijarro - Bolívia
Acordei abruptamente com os murros na porta do meu quarto. Era Roberto, um boliviano responsável pela carga do trem que partiria em algumas horas para Santa Cruz de La Sierra. Peguei minha mochila e fui até a estação pensando no que ele tinha dito sobre essa aventura longa, mas bem tranqüila. Partiríamos num trem de carga, pois era domingo e não havia trem de passageiros. O vilarejo de Quijarro era pouco atraente e o meu desejo era seguir viagem, não importando se tivesse que pegar o temível "Trem da Morte". Enquanto ocupava meus pensamentos sobre a origem desse nome, Roberto ia me dizendo que conhecia duas versões: uma era que algumas pessoas ao viajarem entre os vagões do trem que carregava minérios, eventualmente caíam e morriam e a outra era que nos trens de carga comuns como aquele em que estávamos, passageiros morriam sufocados durante as 25 horas do seu percurso. Tratei logo de mudar meus pensamentos.

A partida

Eram aproximadamente quatro horas da manhã, e lá estava eu, sozinho, dentro de um vagão de carga vazio, fazia uns trinta graus e eu estava na porta observando as estrelas, aí pensei "essa viagem vai ser mesmo tranqüila e interessante". Eu estava certo ao pensar: "interessante" mas "tranqüila"? Santa ingenuidade!

Repentinamente começaram a carregar o trem sobrando pouco espaço entre as cargas no meio do vagão. Até aí tudo bem! Foi quando entraram os bolivianos que minha preocupação aumentou, eram mais de trinta adultos, nove crianças e bebês de colo, além de papagaios e cachorros. Sem perda de tempo, subi nas cargas com minha mochila e tentei me acomodar da melhor maneira possível - junto comigo outros tantos "nativos". O vagão estava literalmente lotado, e assim partimos.

Apesar do calor sufocante, eu estava bem instalado. A nossa frente tínhamos um trecho de mais de 600 quilômetros. O trem ia cruzando os pântanos da região e parava, de vez em quando, em pequenos vilarejos. O trem era a única alternativa barata deste povo sofrido e pobre. Adormecido pelo cansaço, um fiscal me acordou, o silêncio tomou conta do ambiente, todos ficaram olhando para mim. Acho que queriam ouvir minha voz. Senti-me constrangido, mas minutos depois éramos uma grande família.

Nas paradas freqüentes que o trem fazia no meio do nada, podíamos nos alimentar a vontade com empanadas, sucos de laranja e limonada que os moradores locais vendiam, tudo era muito barato e só aceitavam trocados. Sem trocados e com fome, tive que fazer uma dieta forçada. Mais adiante paramos também em Robore onde atracaram vagões contendo cavalos e bois. A viagem demorou tanto que você poderia conhecer uma pessoa, namorar, casar, cansar do relacionamento e se divorciar antes que chegasse ao destino.

Ao sabor do vento

Em meio à selva boliviana, sob a luz de um lindo entardecer, vi uma enorme pedra isolada, era simplesmente magnífico. Próximo dali, haviam formações rochosas íngremes e abruptas. Estava pronto para fotografar, quando Roberto disse para esperar até a próxima estação. Concordei. Ao pararmos em "Pueblo El Portón", subi num vagão e, como um desesperado, comecei a tirar fotos. Nessas horas "tempo" é o que você menos tem e estávamos para partir a qualquer segundo. Daí veio uma boa notícia, estava autorizado a viajar em cima do trem, junto com um grupo de índios até a próxima parada. Com o vento acariciando o meu rosto e a paisagem inóspita ao redor, achei o máximo!

De volta ao meu canto em cima das cargas, sem iluminação, nem janelas, somente as portas abertas, apenas conversávamos, nada mais. A situação ficou crítica quando mais índios subiram até onde estávamos, aí o espaço diminuiu consideravelmente. Tive que sentar numa caixa de bebidas, encostado numa outra que, devido ao balanço do trem, batia no meio das minhas costas. Foi uma experiência fatigante, eu olhava no relógio a cada dois minutos. Foi uma noite que pareceu uma eternidade.

As quatro horas da madrugada uma mulher gritou. Foi um pandemônio, um frenesi geral. As pessoas pegavam seus pertences e estavam prontas para pular do trem. Peguei minha mochila e grudei na parede. Eu não sabia o que estava acontecendo. Que loucura! Então percebi, estávamos em Cotoca, onde a maioria das cargas e pessoas desceriam.

Na verdade, cheguei em Santa Cruz de La Sierra quase duas horas depois, cansado e faminto, mas são e salvo. Desci do trem e coloquei minha mochila nas costas, olhei ao redor, não havia estação, era apenas um ponto de desembarque, a manhã estava fria e ventava muito - o céu estava nublado. Comecei a andar, pensando no que passara, uma experiência no temível "Trem da Morte" que, nessa viagem, não havia feito nenhuma vítima. Parei por um momento, Roberto veio se despedir e me perguntou: "e ahora señor, donde vás?" Respondi, com um leve sorriso de satisfação: "Machu Picchu, amigo, Machu Picchu".

Nota : Este relato reflete fielmente os fatos quando publicado, entretanto, alguns de seus dados podem ter sido alterado com o tempo. Certifique-se de obter informações atualizadas por outras fontes antes de tomar este texto como referência.
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Comentários

  1. Comentário recebido no FaceBook de Daniel Montenegro, Mar del Plata, Argentina: "Muy bueno el relato Levis!! muy bueno."

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  2. Comentário no FaceBook, por Jose Roberto Batalha, São Paulo, SP: "Ainda existe o tal trem? Q máximo, sempre tive vontade e agora acho que não tenho mais idade. kkkkk"

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  3. Comentário recebido pelo FaceBook de Letícia Viana (Salvador,BA): "Como sempre, adorei seu texto!!! Ainda bem que o Trem da Morte não causou nenhuma morte! rs Continue viajando e postando muito para que eu possa ir de carona virtual!!!"

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  4. Comentário no FaceBook de Giovani Balcevicz: "Cara,realmente uma aventura q tbm gostaria de viver!!! Muito legal mesmo!!!"

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  5. Fiz a mesma viagem em 1989. O trem também foi de carga e estava mais do que lotado, como o seu. No meu muitos subiam no teto e as vezes o condutor mandava descer. Mas não tive coragem de subir. Muito bom seu relato!

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    Respostas
    1. Obrigado Hugo, com certeza viagens como estas são inesquecíveis.

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  6. Já no Brasil é o contrário: começando no Norte do país até o Rio G. do Sul, são as milhares estradas da morte, isso de forma concreta e não como apelido TREM da MORTE por causa da malária q vitimou centenas de operários na construção. No Brasil, uma política-administrativa, sebosa, desbancou a ferroviária p,ra priorizar a estrada, mas, mesmo assim eu sou mais a ferroviária.

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  7. FICO SONHANDO COM UMA VIAGEM DESSAS. NADA MELHOR DO QUE VIAJAR DE TREM E PODER TIRAR MUITAS FOTOS. BELA NARRATIVA...VIAJEI. ABS

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