quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Fórum Social Mundial...

Introdução

Fórum Social Mundial - um evento ímpar. Uma realização em Porto Alegre, em 2005, em que o professor e amigo Mauro Braga e eu tivemos a oportunidade de acompanhar bem de perto. Da nossa experiência e presença, surgiu este texto de autoria do Mauro e as fotos tiradas por mim - originalmente publicadas na Revista Mediação do Colégio Medianeira. Espero que apreciem!

... e a propósito do Fórum Social 2005...


Texto: Mauro Michelotto Braga
Fotos: Levis Litz
 
O Fórum Social Mundial, além de representar o mais significativo espaço de resistência organizada contra a imposição unilateral da mundialização econômica neoliberal, arquitetada pelos poderosos de Davos, é o embrião de uma nova sociedade-mundo fundamentada em valores de cidadania planetária. Estar ali entre os milhares de "INGs" ("indivíduos não-governamentais" - conforme a expressão talhada por Frei Betto), acima de tudo, encheu-me do orgulho do pertencimento a algo muito, muito importante.
 
Frequentar as ruas, oficinas, feiras, exposições, debates, shows e tudo o mais dentre as centenas de espaços e atividades que compõe esse evento absolutamente estonteante que é o Fórum Social - ao lado de duzentas mil pessoas de mais de cem países diferentes - antes de tudo me trouxe duas certezas: a de ainda estar vivo e a de perceber o quanto ainda há de gente viva por aí... E foi com essa felicidade de sentir o sangue vivo pulsando nas veias, que me dei conta de algumas reflexões, as quais simplesmente relaciono aqui, sem qualquer hierarquização.

Quisera toda essa gente guerreira, que nunca esmorece diante de tudo de ruim que está tão bem instalado e alicerçado nesse nosso mundo, assimilasse a fundo aquele que talvez tenha sido o ensinamento maior de Ghandi: "seja você mesmo a transformação que você pretende realizar", e assim se ocupasse primeiro da mais difícil tarefa: a do próprio renascimento... Para só então preocupar-se em contagiar os outros e ter legitimidade em exigir deles. Quisera cada um ali se tornasse um verdadeiro instrumento vivo de todas as reivindicações pleiteadas.

Quisera todos esses intelectuais bem intencionados, que não se esqueceram da dívida social incorporada às oportunidades formativas que desfrutaram, tivessem claro que, se para eles um outro mundo é possível, para os dois bilhões de famintos do planeta - que, aliás, não estavam em Porto Alegre (e nem poderiam estar)... - um outro mundo é urgentíssimo, tem que ser imediato, ou ainda que para os que já acordaram para a gravíssima situação da ecologia um outro mundo é uma questão de vida ou morte para a humanidade. Tudo, ao que parece, é uma questão de perspectiva - e isso ficou explícito no desabafo da moça palestina que veio de Ramalah (Cisjordânia) na oficina sobre os países que vivem sob ocupação: "estamos fartos de discussão: esse já é o 5º fórum onde todos discutem e se indignam, mas nada foi feito e Israel continua a nos massacrar impunemente!"


Quisera cada um desses jovens - e eles eram a maioria no FSM, transformando o Acampamento Internacional da Juventude quase que num evento à parte - sedentos por ocupar o papel histórico que sempre lhes coube e por inventar o seu próprio Woodstock ou maio de 68, fossem todos atraídos mais pelo ato político que o Fórum representa e menos pelo velho "sexo, drogas e rock n'roll". Até porque estes - símbolos clássicos da eterna rebeldia transgressora da juventude - sem a devida fundamentação ideológica, ficam restritos a mero entretenimento a serviço da construção da mesma apatia política e social contra a qual os jovens buscam rebelar-se. Descontectar-se do propósito de tudo isso só facilitaria o trabalho dos que controlam o mundo, que querem perpetuar exatamente essa apatia. Com maior cuidado para não incorrer nesse erro, talvez o espetáculo de abertura desse magnânimo evento, no belíssimo, energético e democrático espaço do anfiteatro "Por do Sol", tivesse mais a cara e a solidez de um ato cívico e desafiador contra os poderosos do mundo, e menos a de uma reunião de "alternativos" - fortalecendo exatamente aquela imagem "irresponsável" que as elites tentaram divulgar...


Quisera que os pretensiosos "donos da verdade" da pseudo-intelectualidade midiática brasileira, que se divertem fazendo o jogo da extrema-direita e "zoando" com os desmandos da esquerda - embora jamais admitam o quanto são decisivos no que se refere a contribuir para que um outro mundo nunca seja de fato possível (leia-se aqui desde os Bóris Casoy/Diego Mainardis da vida, até os piores momentos de quem já mereceu créditos, como Arnaldo Jabor, entre dezenas de outros...) - trocassem temporariamente de papel com os grandes pensadores que arrastavam multidões no Fórum (como em qualquer outro lugar no planeta onde exponham suas idéias), tais como os palestrantes Eduardo Galeano, José Saramago, Frei Betto, Leonardo Boff, Ignacio Ramonet ou os ausentes (mas ainda assim sempre presentes) Chomsky, Hobsbawn, Capra, Kurz. Seria interessante a visão inversa: esses últimos com todo o espaço e financiamento da mídia, invadindo todos os lares e levando sua mensagem livremente a todos os povos, e ao mesmo tempo aqueles outros baluartes da mediocridade desentocando-se da segurança da telinha ou das frias páginas das revistas, e experimentando a sensação de enfrentar e inflamar uma multidão verdadeiramente crítica - pois falar para cabos eleitorais e enganar ignorantes é ligeiramente mais fácil. Viver, quem sabe, a experiência vivida por Frei Betto no Fórum, falando para duas mil pessoas e levando-as a deixar de lado as polêmicas inquietações com a atual política econômica e explodirem de alegria numa manifestação espontânea de orgulho por viver num país onde - como ele disse, contando aos colegas franceses da mesa - "no meu país um miserável provou a teoria de Paulo Freire: tornou-se um verdadeiro sujeito histórico e hoje é Presidente da República! Isso aconteceu no meu país!". E olha que o próprio Lula não havia sido poupado anteriormente num outro evento do Fórum Social. Fica aqui o desafio, então: querem trocar um pouco de papel com os verdadeiros intelectuais, senhores?


Quisera alguns políticos de carreira que adoraram participar das mesas ao lado de tantas feras, mas que têm os péssimos hábitos de também adorarem microfones e holofotes, e de fingirem que não reparam quando são descaradamente inconvenientes, lembrassem mais o velho ditado: "Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para ouvirmos mais e falarmos menos" e compreendessem de fato o quão importante é o seu papel nesse projeto de transformação. Quisera fossem "contagiados" pelo Fórum a ponto de cada um perceber a urgência de rever compromissos, prioridades e atitudes.

Quisera todos aqueles cidadãos que gostam de conversar sobre política e atualidades em suas rodinhas de amigos, muitas vezes alfinetando a tudo e a todos com o sarcasmo despretensioso de quem adora reclamar (mas que a cada quatro anos repete sempre os mesmos velhos votos, com medo de colocar em risco o maior ou menor conforto que desfrutam), construindo argumentos a partir das "informações" (?) que obtiveram pela mídia (e como é traiçoeira a confiança cega nas fontes de informação..), pudessem compreender como a discussão política que dá espaço à contradição, ao contraponto, à discordância, e que se ocupa em ouvir as histórias reais contadas por pessoas reais - cada qual uma fonte preciosa de dados - pode ser enriquecedora. O Fórum é um espaço privilegiado para isso: ouvidos atentos podem sintonizar-se tanto na fala inflamada e desafiadora de Hugo Chavez contra os EUA - evento grandioso - como também nas pequenas e riquíssimas informações sobre a realidade das lutas em todos os cantos desse planeta, que são obtidas "olho no olho" em cada uma das vielas e esquinas do Fórum. É incrível como a boa vontade em partilhar experiências supera qualquer dificuldade com idioma: é o angolano sorridente que torna-se sério ao descrever a situação das minas terrestres em seu país, é o ativista basco que não se intimida diante da pergunta marota sobre o ETA, é o vietnamita que tenta trazer de volta alguma atenção às seqüelas vividas até hoje por sua gente, mesmo depois da vitória na guerra contra os EUA. Como é diferente discutir a situação do atual governo do Zimbabwe diretamente com cidadãos daquele país e diversos outros ativistas de ONGs africanas, ao invés de "fundamentar-se", por exemplo, numa matéria de meia página de uma revista como a "Veja". É rico! Muito rico! Me fez lembrar e vivenciar a letra daquela canção dos Mutantes: "Não sou daqui, nem sou de lá, eu sou de qualquer lugar / meu passaporte é espacial, sou cidadão da Terra". Quisera eu me transformar numas 50 pessoas para conseguir estar em todos os lugares do Fórum, falando com todos que eu conseguisse... Não! Acho que teriam que ser 100... No mínimo...


Quisera que todos aqueles que assumem discursos ou se propõem a encaminhar projetos de transformação não ignorassem o espaço conquistado pelo Fórum Social. Ali é a troca, o ponto de encontro, a reavaliação de experiências e, acima de tudo, a injeção revigorante de ânimo. Negar isso ou afastar-se disso constituem equívocos estratégicos imperdoáveis, afinal a empreitada é extremamente árdua (é lógico: nenhuma elite detém o poder por acaso, pois capacitou-se em dominar todas as técnicas imagináveis para se perpetuar), e só lograremos algum êxito se bem organizados, conscientes de que somos ativistas heterogêneos de lutas heterogêneas, porém que se afinam numa convergência vital: um imenso "NÃO!" ao modelo que aí está. O Fórum Social nos traz a sensação do real. Teorizar em excesso, ignorando os ensinamentos dessa overdose de realidade, é um convite ao fracasso de qualquer iniciativa isolada, por mais bem intencionada que seja.

Mauro e Levis
Quisera ainda que lá em Davos e em todas as demais esferas de poder que conduzem essa globalização neoliberal assassina (pois condena milhares à fome e às guerras), mentirosa (pois promete o irrealizável), desrespeitosa (pois busca a massificação, ignorando a linda diversidade de povos, culturas, religiões, etc...) e insana (pois nos obriga, como humanidade, a marchar diretamente para o caos total - ecológico e/ou social), as elites abandonassem momentaneamente a sua soberba, saíssem um pouco de seu estado catatônico inebriado pelas posses, riquezas, confortos e convicções, e pudessem enxergar Porto Alegre sem o olhar míope imposto pela mídia tendenciosa. Vissem de fato as articulações ali traçadas. Quem sabe a visão lhes despertasse, lhes tocasse um pouco a alma tão endurecida pelo capital, e assim viessem engrossar os cordões dos que clamam por vida, justiça, paz, solidariedade, amor, e tudo mais. Ou então quem sabe, caso o sarcasmo e o cinismo ainda prevaleçam, a visão faria com que de fato tremessem, se apavorassem, diante da verdade histórica inquestionável que o Fórum Social mais uma vez evidencia: estamos vivos, senhores. Vivos, articulados, e cada vez mais numerosos.

O jornalista Levis Litz e o geógrafo Mauro Braga, foram dois dos milhares de "INGs" ("indivíduos não governamentais": ativistas autônomos que não representam ou não estão vinculados a nenhuma ONG ou instituição) presentes ao Fórum Social de Porto Alegre, em janeiro de 2005.

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Nota: este texto reflete fielmente os fatos quando publicado, entretanto, alguns de seus dados podem ter sido alterados com o tempo. Certifique-se de obter informações atualizadas por outras fontes antes de tomar este texto como referência.
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