História de Viagem - O intrigante silêncio de Tiahuanaco

Situada na Bolívia, a milenar cidade de Tiahuanaco é um dos locais mais misteriosos da antiguidade, onde viveram antigos e desconhecidos habitantes da América do Sul. Entre as diversas culturas desenvolvidas na América ao longo dos séculos que antecederam a chegada de Colombo, uma das mais intrigantes é a do Império Tiahuanaco também conhecida como Tiwanaku. Localizada a 72 quilômetros de La Paz, suas ruínas são ainda um mistério indecifrável.

Tiahuanaco - Bolívia. Fotos: Levis Litz

Uma lenda conta que Tiahuanaco foi construída numa só noite, depois de uma inundação, por uma raça de gigantes que foram aniquilados por raios vindos do céu. E o que restou foram apenas cinzas dos templos. Lendas à parte, pouco se sabe a respeito do povo que a construiu. Os índios contaram aos primeiros espanhóis que ali chegaram que Tiahuanaco foi encontrada abandonada pelos incas que apareceram na região no século XV.

Minha Mochila Por Testemunha

Para uma pessoa que adora viagens e mistérios, estar à caminho de Tiahuanaco era o máximo. Deixei o quarto do hotel onde estava em La Paz com o objetivo de viajar até as ruínas. A frustração começou cedo naquele dia nublado e frio. Todos os ônibus estavam lotados. Os funcionários das empresas de transporte diziam que o único jeito era fazer uma reserva para o dia seguinte. Entretanto não desanimei, tinha de achar uma maneira de seguir adiante. Assim, saí pelas ruas perguntando aos mais idosos. Eu acreditava que eles deveriam conhecer alguma alternativa que as empresas não me revelavam. Até que encontrei um senhor que deu uma dica: eu tinha que ir até um cemitério, descer uma ruazinha pedregosa à direita e entrar numa pequena sala de um barraco. Quando entrei na sala com uma enorme mochila nos ombros, todos me olhavam atentamente. Dirigi-me a pessoa que parecia ser um atendente. Expliquei minha situação e ele me disse que naquele meio de transporte, um furgão, só podiam viajar bolivianos. Conversei, argumentei, implorei e supliquei. Quis pagar mais pela viagem, mas não aceitaram. Até que todos no local se afeiçoaram a minha causa e assim, pela insistência dos presentes, permitiram-me embarcar.
 
O veículo tinha capacidade para 12 pessoas incluindo o motorista. Eu sentei no banco de trás, ao lado da janela, onde me grudei como um polvo e seus tentáculos. Ao meu lado, havia lugar para mais duas pessoas. Foi então que entrou um senhor de meia idade, uma jovem e por fim uma senhora com um garoto. Só ali no banco de trás, era uma família completa e eu. A superlotação se repetiu nos outros assentos. Quando estávamos mais do que superlotados, o furgão partiu. Na primeira esquina que o veículo reduz a velocidade, mais dois cidadãos forçam a entrada e se juntam a nós.
 


Lá fora fazia muito frio, dentro do furgão todas as janelas estavam fechadas. Sem ventilação, não demorou muito para que o odor se fizesse notar, para mim pelo menos. Por ter vivido no exterior por muitos anos, já sabia que em muitos países tomar banho não era uma atividade diária, como no Brasil. Mas o meu olfato não quis nem saber, obrigou-me a abrir uma frestinha na janela para poder ao menos respirar, mesmo com o vento cortante irritando as narinas. O odor era de tal forma insuportável que acho que nunca mais esquecerei. Quase duas horas depois com o nariz pregado na janela e com a dor causada pelo vento gelado desci do furgão. Do outro lado da estrada a visão de Tiahuanaco.

Antigo Mistério do Mundo

Paguei a entrada e aproveitei para visitar um pequeno museu. O responsável tentou me vender - clandestinamente um artefato, que segundo ele, era original. Ao mostrar meu desinteresse, ele foi baixando de preço e aumentando a variedade dos artefatos. Perguntei de onde eram, "mercado negro", disse o homem. Meia hora mais tarde, eu me encontrava no meio das ruínas. Aproveitei para caminhar por toda a cidade. Ao ver templos e enormes estátuas como a do "O Frade" contendo símbolos indecifráveis de uma civilização desconhecida fundada há cerca de 2.200 anos, eu tentava vislumbrar de como teria sido o passado naquelas terras. O mais famoso monumento de Tiahuanaco é a "Porta do Sol", que foi talhada num só bloco de andesite. No centro da parte superior há uma figura segurando um cajado de cada lado e que parece estar chorando. É chamado de "O Deus Que Chora". Alguns estudiosos acreditam que outros símbolos em relevo que se encontram no portal representam um calendário, talvez o mais antigo do planeta. Entretanto, eles permanecem até hoje indecifráveis.

No topo de uma pirâmide parcialmente destruída por "pesquisadores" interessados em encontrar tesouros, vislumbrei, em meus últimos momentos naquele lugar, toda a cidade de Tiahuanaco: um deleite para os olhos e um mistério para a mente.  
 
 
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